Pausa na mãe. O dia é dos pais

João Pedro chegou ontem com um presente feito na escolinha para o dia dos pais. Achei fofo, e fiquei me esforçando pra lembrar quais os presentes que eu também fazia nesta data. Pensei no meu pai, na minha infância, e em tudo que aconteceu de lá pra cá. Todas as dificuldades, medos e toda a merda que a gente ignora pra seguir em frente, pra se tornar adulto. Meu pai era um cara legal. Um marido apaixonado, um funcionário respeitado, o tipo de pessoa que a gente quer ter por perto. Mas que se afastou. Em algum momento, ele se afastou! E encontrou no álcool o refúgio que ele precisava pra se sentir livre. Sei lá do que, sei lá de quem, sei lá porquê… O fato é que o álcool transforma não só a pessoa, mas toda a realidade ao redor dela. E nesse caso, era a minha mãe que estava lá. Minhas irmãs, eu. Surpreendidas pela presença de uma pessoa que agora era um completo estranho pra nós. É foda julgar! Meu pai deve ter tido seus motivos. Teve uma infância ferrada, carregando responsabilidades que não eram dele. Com as quais honrou, até o dia em que achou que não devia fazer mais nada pra ninguém. Que podia ser quem ele quisesse, que podia se livrar daquela merda toda que a gente ignora pra seguir em frente, pra se tornar adulto. Mas a vida é um ciclo, entende? E com essa isenção, ele transferiu pra nós, as mesmas responsabilidades, o mesmo peso que ele sabia que era tão difícil carregar! Então a gente aceitou. Eu não aceitei direito. Porque é foda ter 10 anos e conhecer mais palavrões do que o vocabulário normal permite. É foda passar uma noite inteira separando briga de casal, e no dia seguinte chegar na escola pra interagir com os coleguinhas como se nada tivesse acontecido. Pra ouvir a amiguinha contando como foi o passeio do fim de semana, quando todos os seus dias estão sendo um caminho sem volta, um caminho sem fim. Mas meu pai era um cara legal! E foi pra preservar essa imagem bacana que eu decidi parar de falar com ele. Foram 4 anos sem pai, mesmo com pai. 4 anos ignorando o fato de entrar em casa e encontra-lo inconsciente, querendo iniciar brigas irracionais, apontando fatos irreais. 4 anos sendo criticada por gente de fora, que não faz a menor ideia do que é acordar no dia seguinte e encarar o vizinho com vergonha, pedir desculpas pelos gritos que ele possa ter ouvido na noite anterior, e na outra antes dessa, e na outra depois dessa… “Olha a Bruna, não fala com o pai dela, que absurdo!”. É foda julgar! Mas vc se mantem. Afinal, é muita coisa pra lidar, será que pelo menos da minha vida posso me encarregar? Aprendi a trocar lâmpada, arrumar a antena da TV. A consertar cano, chuveiro. A olhar feio pra homem filho da puta que chegava com gracinha. Faz falta a figura do pai. Fez falta a figura do meu pai. Aquele, que era gente boa. Meu pai adoeceu. Voltamos a nos falar. 2 meses depois, não poderíamos nos falar nunca mais. Metástase. A rapidez com que o câncer age é surpreendente. A gente não espera. Mas eu esperava que pudesse voltar no tempo, que pudesse ter 7 anos de novo pra dizer: “Pai, não está certo o senhor me mandar comprar mais uma Velho Barreiro no bar do Seu Zé. Não tenho idade pra isso, não é um ambiente legal pra mim. Nem pra você. Me leva pra passear! Pede pra mãe se arrumar e vamos todos tomar um sorvete.”. Não sei se teria adiantado. Porque é foda julgar! Mas apesar disso tudo, apesar de, vez ou outra, encontrar a merda toda que a gente ignora pra seguir em frente, pra se tornar adulto, eu tô aqui. Algumas coisas acontecem e levam a gente pra um patamar de força e garra que não teríamos encontrado de outra maneira. Então eu sinto orgulho. E me emociona ver hoje, meu filho entregando um presente que ele fez para o dia dos pais. Sabe… Queria que ele tivesse conhecido meu pai. Ele era um cara legal.

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